Deusa

tempestade

Amanheci nos restos de poesia do ano que passou. A aridez deixa vestígios: tanto que hoje minha pele finalmente completa trinta anos de idade e eu não sou mais menina. Estranho. Era para que eu sossegasse, enfim: mas a paz não existe. O desejo é a maior potência do mundo e eu não me canso de ansiar pelo sem-nome que nasce do acaso. A natureza é vasta e nem sempre generosa. Dizem que a deusa é filha da chuva. Faz brotar os ramos mais delicados após um período de seca. Mas também mata sem piedade, rompe os diques, os sonhos, os canos, os laços. Dizem que a deusa é filha do vento. Acalenta. E fere. Dizem que a deusa. E, quanto mais dizem, menos a compreendem. A deusa é mãe de todos os nossos ventres. Irmã de todas as nossas estradas e de matas intocadas. A deusa é quando a gente abraça e cura. E quando a gente grita o primeiro de todos os nãos. A deusa é esse repouso grávido de revoluções. É todos os partos do mundo. Todas as nuvens. Todas as luas. A deusa é a arte de se transformar em fera sob a lua cheia. Proteger as crias. Amamentar ideias e potências. É árida – por vezes -, a deusa. Sugada pelos excessos desnecessários dos dias. Sufocada pela engrenagem. Amaldiçoada pelas mais mesquinhas vaidades. A deusa morre quando a fingimos amor e ganha cores quando o amor é vivo e fértil. A gente não sabe nem quando nem como: mas a deusa é água. Unhas, grelo, dedos, útero, chamas. O corpo aberto. Sem receio da nudez. Ou da vontade. Vivo. Com jeito de quem nunca vai deixar de dançar. Pro diabo todo o medo do mundo: a deusa é ânsia de viver. E vive. Feito uma marca ardente em nós. 

Imagem: Iansã 

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