de coisas miúdas e de feras

  Medo de coisas miúdas. Insetos e aranhas. Sem qualquer razão, uma vontade de matar. Vontade, não: necessidade. Medo produz necessidades – ou assim faz com que nomeemos essas forças tristes que nos tomam. Paralisam. Dizem todos os nãos do mundo ao desejo. De viver e deixar viver. As coisas miúdas vivem. Seguem seus rumos […]

A outra parte da vida

Minha alma clama por liberdade. Anseia pelos sem-limites do céu. Deseja. Afirma. Minha alma me grita e me chama. Plena de raiva. Plena de encanto. Plena de amor. Eu, surda aos seus apelos, finco os pés onde parece seguro. Onde a vida parece encontrar seu doce repouso de morte. Onde meu coração sufoca. Porque parte […]

Profecia dos invisíveis

Ela me veio contando que a irmã morreu assassinada enquanto dormia ao relento num bairro distante. Ela me veio quase sorrindo. E se lembrando de mim. Ela: menina que era naqueles tempos. Menina ainda, cercada de porvires. Na mão esquerda, a mão da irmã. Pedia uma moeda, um agradinho de nada. Dizem que para tomar […]

Para ela

Eu quase ouvi a voz dela dizendo que tinha medo. Medo, medo, muito medo. Eu quase ouvi a voz dela arranhando minha alma. E combinei com a minha – vozes sufocadas. Vozes de quem um dia sonhou. Vozes de quem não tem pressa de acordar. De quem aos poucos passou a temer o sol e […]

Menina

Querida menina, Você é feita de memórias que desenham todo o seu corpo – cravadas nele feito miúdos diamantes. Machucam. E curam. Ontem mesmo você disse as palavras que teve vontade de dizer e a poesia retornou por uns instantes. Mas você hoje teme a poesia porque ela carrega lembranças daquela primeira dor. Quando seu […]

a palavra

Sinto falta de mim – alegremente nua ao seu lado. Sinto falta de mim  – sensível e aberta: a pele revestida de arrepios, a alma desaguando aromas de flor e mistério. Procuro-me no caderno de rabiscos na cabeceira da cama. No seu ombro forte e nas suas mãos ansiosas. Procuro-me sob o tapete, em meio […]

Deusa

Amanheci nos restos de poesia do ano que passou. A aridez deixa vestígios: tanto que hoje minha pele finalmente completa trinta anos de idade e eu não sou mais menina. Estranho. Era para que eu sossegasse, enfim: mas a paz não existe. O desejo é a maior potência do mundo e eu não me canso […]

Nosso tempo (ao pai)

O tempo, meu pai, não pede licença. Invade-nos, pois, adentro, adentro. Carrega-nos fundo onde não queremos ver. Por isso, quando é madrugada, as memórias mais doces aparecem feito demônios assustados. Espíritos saudosos. Almas sofredoras. O tempo em que vislumbrávamos o mar. O tempo em que a chuva era amiga. O tempo em que conversávamos com […]

Em nome dos pais

Deixei que entornasse um pouco em mim. A cerveja estava quente agora e tudo perdia um pouco da graça. Eu estava quase leve, fazendo uma alegria ensaiada: teatro quase bonito após mais de três copos cheios. Deixei que entornasse um pouco mais de si. Em mim. Lembrei-me vagamente de todos os amores que inventei quando […]

um conto

Contava um conto e aumentava uns três ou quatro pontos. Um lindo bordado feito com as mãos da alma. As mesmas que cuidavam dela desde pequena, quando fazia escuro. Bordava e tecia. Histórias sem fim. Desejava ter, ao final, um livro maravilhoso que mostraria para a mãe. Como quem exibe um tesouro. Era ela própria […]