Carta a Ana. Ou Luisa. Ou Beatriz

Querida Ana. Ou Luisa. Ou Beatriz.

Querida você.

Querida,

Não é que escrever cure. Não há cura, minha amiga, para o processo lento e deteriorante de humanização. Sim, porque você sabe: humanizar-se é arruinar um pouquinho a cada dia a fera que vive em nós. É inventar a bondade e também a maldade. Fazer-se tão hedonista quando abnegada. Fazer-se cruel. Pecadora. E santa. Fazer-se plena de generosidade e vingança. É doer. Perder-se. Humanizar-se é começar a entender. E ter vontade danada de nunca mais entender novamente. Mas o entendimento está aí. Ferindo na carne. Na alma. Ferindo nos olhos. Nas veias. Na vida.

Não, não há cura. Mas escrever ajuda a desopilar. Ajuda a colocar as ideias no lugar. Porque hoje, ora, uma pequena decepção. E a gente só consegue se decepcionar quando espera. Quando cria oportunidade para a beleza acontecer. Decepção é o risco do desejo. E, sim, há quem acredite que o desejo seja nossa ruína. Mas entenda, Ana. Ou Luisa. Ou Beatriz. Entenda, querida: ainda não sei o que é não desejar. Portanto, quanto mais escondo o desejo, mais ele busca formas de transbordar. De atravessar minha pele e verter potente mundo afora. Já lhe disse que um dia gritei mais do que podia? Mas o que pode, afinal? E o que não pode?

Escrever transborda. Desordena. E depois ordena. Ah, querida, a primeira queda não significa desistência. A gente machuca um pouco. Pensa que não vai passar. Mas minha querida, minha querida, a gente tem uma voz e um sonho. Uma infinidade de vozes e sonhos pra mais de metro. Eu gostaria de voltar a desenhar. Ainda tremo, sabe. Fico com medo de fazer o que gosto. Fico com medo de pegar o lápis e rabiscar a mulher que desejo ser. A mulher que anseia. A mulher que vive. A mulher que sabe parir flores e fantasias. Que talvez não tenha um filho. Mas que terá arte. Cuidado. E amor.

Não é que escrever cure. Mas cuida. Escrever cuida. E eu preciso tanto de cuidado, ah, se preciso.

O amor, querida. E a solidão. No fim das contas, a solidão. A gente sabe que o outro está ali. Mas dele é o corpo dele, e meu é o meu. E eu posso partir carregando as marcas que ele deixou em mim. Ele fica, sim. Mas só na medida em que traz memórias que me aplacam a solidão.

O amor faz um barulhinho fino, querida. Que é pra gente lembrar que a vida existe.

Com amor,

 

Carla

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