Eram quase 30

Certo dia, ela amanheceu pensando em ter um filho. Antes dos 35, pensava. E já adivinhava o imenso prazer de aconchegar alguém. Mas saberia ela – povoada de angústias – oferecer conforto? Dia e noite, incessantemente? Sentiu uma delicada ânsia de vômito. Um medo de. Mas não sabia explicar. Lembrou-se, era claro: tinha um homem ao seu lado. Ou um menino. Ou um príncipe. Não sabia ao certo se ele saberia ser pai. Nunca entendeu bem se alguém no mundo sabe, realmente, ser pai. Era tarde e ela havia desaprendido aquelas palavras soltas que a fizeram se aventurar no mundo das fantasias: precisava agora pisar em um mundo concreto. Era inteligente, mas por vezes duvidava da própria sanidade. E tinha mania de ver precipícios diante de si. Sempre, sempre, sempre. E todos os dias da sua vida.

 

Naquelas manhãs em que havia acordado em paz, desconheceu-se. Naquelas tardes em que se sentia bela, desconheceu-se. E quando as palavras lhes saíam claras e todos na mesa de reunião compreendiam, desconhecia-se. Eram quase 30 anos e apenas agora ela se descobria pós-adolescente. Eram quase 30 anos e só agora ela entendia que sempre havia portado uma sabedoria fina, dessas nascem nos rodopios do pensamento desconexo. Eram quase 30 anos e só agora ela entendia que, afinal, tornar-se a si mesma é um grande e belo desafio. Tornava-se, pois, a mulher que apreciava pratos condimentados. Escrevia poesias. Achava sexo algo muito mais simples do que a coisa que a televisão, em suas volúpias e pudores, tentava mostrar. Era bonita – quando nua, mais ainda. Tinha o pensamento rápido. A alma expansiva. Não gostava de lavar louça. Adorava cozinhar. Preferia os mistérios. E tinha pavor de mentir para si mesma. Tornava-se a si mesma também em seus defeitos. Misturava-os às suas virtudes e fazia um caldo deliciosamente quente e agridoce.

 

Certo dia, ela amanheceu pensando em ter um filho. Antes dos 35, pensava. Mas teria ela – em seus destemperos – vocação para ser mãe?

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One thought on “Eram quase 30

  1. Acho que vamos ficando mais seguras de nós mesmas a medida que envelhecemos. Não sei se acredito muito nesta coisa de vocação. Acredito mais no desejo. No desejo de ser mãe de verdade e não de brincar de boneca com uma criança, como muitas pessoas têm. Mas sim naquele desejo que, ao se saber o quão difícil e trabalhoso é criar filhos, não vai embora. Não sei se é necessário confortar incessantemente. Acho que quando não somos confortados o tempo too pelo outro, aprendemos a nos confortar. Acho que os filhos também confortam os pais. E ainda acho que destemperos não só fazem parte como fazem bem à vida.

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