Fora de si

van gogh

Você não consegue sair de si. Nem por um minuto. A voz alucinada – insistindo para que você faça – parece vir de fora. Mas nasce bem no antigamente que você guarda nas vísceras. Bem naquele primeiro dia em que você pensou que teria que dar conta de todas as contas do mundo. O primeiro tapa, a primeira despedida, a primeira vez que lhe foi entregue uma responsabilidade maior do que a que você seria capaz de suportar. E você se sentiu estupidificado. Lá fora, correm as insistências das neuroses alheias – que tocam desesperadamente nas suas. E você pensa que precisa salvar, salvar e salvar. Lentamente, passa a se acreditar uma espécie de santo. Uma espécie de virgem. Uma espécie de mártir. Começa a se orgulhar da dor com tanto suor cultivada. Orgulha-se de que tenha roubadas suas horas e suas delícias, alegra-se de não ter mais tempo nem felicidade. Quando se vê cercado pela floresta espinhosa que você mesmo construiu, insiste em inventar culpa naqueles que timidamente tentam se libertar. Abnegado, você é maior do que o mundo e mais próximo de deus. E você se vê no direito de erguer as mãos com uma altivez que não lhe cabe e de apontar o dedo com uma grosseria que agora lhe é tão sua. Você aponta e aponta e aponta. Enxerga no olho do outro um cisco. Não consegue mais ver o desespero nos próprios olhos. Você insiste e insiste e insiste. Você agora tem a verdade e morre de medo de que lhe tirem essa última – e derradeira – ilusão.

Você não consegue sair de si. Nem por um minuto. Não se não conseguir contemplar a beleza da própria morte. Um jeito delicioso de se despedaçar. Para aprender a ser tão delicado quanto os deuses que dançam. Dionisíaco. Cheio de flores. E renascido agora do ventre do riso.

O mais doce aprendizado, meu amor, está em se despir de si. Lançar-se à imprevisibilidade do mar. Morrer um pouquinho. Matar. Dançar nu sob a tempestade. Porque aquilo que lhe parece tão caro – seus talentos, seus bens, suas posições tão bem determinadas, suas honras -, tudo isso, de tão sólido, quebra-se a um sopro. E o que ficam são rastros. Dessa vasta poeira que nos compõe e desmonta.

Imagem: A Pair of Leather Clogs, Van Gogh

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