Meu nascimento

O meu nascimento foi ontem, quando a vida cantou aleluias de liberdade e me colocou de pé diante do precipício: era o voo. O meu nascimento também foi há muitos e muitos anos, quando as mães se reuniram em torno de uma fogueira e cantaram hinos de ardência e desejo. O nascimento é feito de […]

Luzia

Tinha a sabedoria firme do corpo que insiste e resiste Vivia o aperto dos dias o descuido e o cuidado a valentia das feras a galhardia da damas – mas falava palavrão, de repente, sem pensar. Voava à frente do tempo – feito todas as mulheres. Rompia os véus e as correntes e cantava para […]

Retorno

Querida Fernanda, De vez em quando escrevemos uma à outra. De vez em quando paramos. Da última vez eu precisei me recolher no infinito. Nem te conto. Fica, aliás, quase impossível contar sem doer. E – oh, deus – dizem que a palavra pode curar. Mas acontece que, para curar, ela precisa passar por terrenos […]

Essa força

Essa doce força dos frágeis sem pudores jorrada na ordem da vida atiçando os humores há muito enterrados * Essa força macia das nossas memórias: o colchão o retrato o abraço o cuidado o meu choro-criança ,sua mão, meu amor * Essa força tão bela antiga surrada A potência da história cravada no corpo * […]

Carta a Ana. Ou Luisa. Ou Beatriz

Querida Ana. Ou Luisa. Ou Beatriz. Querida você. Querida, Não é que escrever cure. Não há cura, minha amiga, para o processo lento e deteriorante de humanização. Sim, porque você sabe: humanizar-se é arruinar um pouquinho a cada dia a fera que vive em nós. É inventar a bondade e também a maldade. Fazer-se tão […]

de coisas miúdas e de feras

  Medo de coisas miúdas. Insetos e aranhas. Sem qualquer razão, uma vontade de matar. Vontade, não: necessidade. Medo produz necessidades – ou assim faz com que nomeemos essas forças tristes que nos tomam. Paralisam. Dizem todos os nãos do mundo ao desejo. De viver e deixar viver. As coisas miúdas vivem. Seguem seus rumos […]

Ela vestia azul

Ela vestia azul e lhe caía bem. Fazia tempo que não reparava nisso: o corpo, a alça do vestido, o delicado movimento dos quadris. Olhos pintados fazendo um brilho magnífico. Ela queria mostrar. Ah, queria mostrar. Queria mostra a ele que estava bem. Sempre achou que abrir o coração era o mais belo e honesto […]

Errar Errar Errar

Errar. Errar. Errar. Alguém proibiu e eu não me lembro do nome dele. Dizem que era o próprio Deus vestido de nossos fantasmas de infância. Ou a memória da infância vestida de deus. Só sei que alguém proibiu o erro e nós acreditamos. Eu, ao menos, acreditei. Logo eu, que do erro faço os mais […]

Ainda que…

Ainda que murcha, uma flor Ainda que seco, um riacho Ainda que triste, um dia de sol: as coisas guardam em si a memória do que foram a semente do que podem a espera de um porvir. As coisas guardam saudade desejo e poesia: o meu quarto guarda a infância os seus braços guardam os […]