Filha

Você tem medo. E tem também amor. O que pesa mais, ainda não decidiu. Lembra-se vagamente da mãe no hospital, lá no comecinho da sua vida. Você sentiu culpa e achou que era por causa de você que ela adoecia assim. Achou que era por causa das miúdas maldades que brotavam em seu coração. Você, desde menina, pensa no amor e na morte. Tem fantasias e toca o próprio corpo de maneira imprópria. Tudo é inapropriado para uma mocinha assim tão meiga. Tão filha de Deus. Tão moça. Você de repente decide esconder o corpo porque o sangue veio e você não entende muito bem o que é jorrar assim, vermelha e fêmea. E você tem medo de engravidar e de sentir dor e você não tem mais do que 12 anos de idade. Você sente todas aquelas dores – no corpo e na alma – que precedem o sangue e você é, sem mais nem menos, filha da lua cheia. Você tem medo de ser bonita e mais medo ainda de ser feia. Tem medo do amor e um pavor alucinado de não ser amada. Você cuida de quem precisa ser cuidada da mesma maneira como sempre desejou que cuidassem de você. Você e sua mãe sentam-se em uma pedra do tamanho do mundo e só avistam a imensidão do mar diante das duas. Vocês sentem sede e se compreendem mulheres. E isso é raro. Há um certo antagonismo mãe-e-filha que as perseguiu desde o dia em que você desenhou os primeiros traços de uma garota com curvas. Talvez ela tenha se lembrado de que também teve medo de ser bela. E teve medo de ser feia. E também teve medo do homem, do pai e da mãe. Teve medo do mundo. Você e ela acreditam na Terra do Nunca: dizem que fica no além-mar. Vocês são sereias. Você, em segredo, quer voltar para o ventre e começar tudo de novo. Mas, dessa vez, você promete nunca mais errar. Promete não chorar essas dores indizíveis. Promete ser forte. E sempre doce. Promete não contar esses medos que se entrelaçam nos medos dela. Promete não atiçar angústias. Promete ser mulher, mas nem tanto: promete não ter tanto sangue assim. Você quer voltar ao ventre e começar tudo de novo. Você pede aconchego e tem vontade de chorar. Você ainda não entende que sua delicadeza não é um mal. Você quer ser dura, dura, dura. E por isso disfarça as lágrimas, o vermelho nos olhos, o nó. Disfarça também esse riso frouxo, doce e quente. Porque é esse riso, minha flor – mais do que o pranto -, que a torna tão vulnerável quanto as asas de uma borboleta em rodopios. Uma borboleta que voa para o bico aberto da coruja da madrugada. Feliz de dor e ansiosa pela escuridão.

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