Contador de histórias

Ele saía cedo para trabalhar e voltava à noite. Eu mal adivinhava o cansaço disso tudo: na vida profissional, nem sempre manda a doçura. Hoje, anos mais tarde, entendo dele um pouco da ansiedade e tenho medo de minhas próprias crises. Naquele tempo, no entanto, eu só sabia que ele chegava e eu queria muito. Ouvir os contos da noite. Histórias artesanais: meu pai era um contador criador. Artesão de quadros mágicos e encantadores que balançavam nossa imaginação. Crianças que conheciam mundos distantes, cenários fabulosos, perigo, mistério, profundezas da alma. Havia um mundo que particularmente me deixava sempre um pouco embasbacada: o das crianças que entravam em quadros na parede e lá viviam intensas aventuras. Ele não tinha medo de colocar doses suaves de medo em suas histórias, pois também acrescentava doses mágicas de amor e aventura. Meu pai saía cedo para trabalhar e voltava à noite. Mas era à noite, colocando-nos para dormir, que parecia trabalhar com mais afinco. Afinco de um artesão. Trabalho de contador de histórias. Criador de casos. Desenhista de contos. Porque a vida, minha amiga, por vezes nos rouba os sonhos. E há algumas maneiras de recuperá-los. Infinitas, talvez. Mas secretas. Guardadas em nossas almas de artesãos. Antigas almas, bem antigas: nascidas no tempo em que ainda fazia sentido conversar. Foi isso o que meu pai me ensinou. É isso que meu pai me ensina. O fio da história. O canto secreto da vida. A potência da voz. Ele sumia cedo e voltava à noite. E, num instante, transformava-se em artesão.

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