Luzia

Tinha a sabedoria firme
do corpo que insiste e resiste
Vivia o aperto dos dias
o descuido e o cuidado
a valentia das feras
a galhardia da damas
– mas falava palavrão,
de repente, sem pensar.
Voava à frente do tempo
– feito todas as mulheres.
Rompia os véus e as correntes
e cantava para mim.
Dizia verdades doídas
sabia ferir e curar
Era lágrima, coragem
e gargalhava, às vezes,
quando era proibido –
principalmente na igreja
no momento do amém
É que só ela sabia
que os anjos mais belos do mundo
são os mais tortos também.

Vovó, que nasceu canhota,
aprendeu a ser direita
Mas no fundo, no fundo
– e hoje eu sei muito bem –
voava sempre à esquerda
no mundo das meigas paixões:
inteligente e brilhante
é mais do que fé
– é amor
e dispensa retidões.

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