Retorno

Querida Fernanda, De vez em quando escrevemos uma à outra. De vez em quando paramos. Da última vez eu precisei me recolher no infinito. Nem te conto. Fica, aliás, quase impossível contar sem doer. E – oh, deus – dizem que a palavra pode curar. Mas acontece que, para curar, ela precisa passar por terrenos […]

Carta a Ana. Ou Luisa. Ou Beatriz

Querida Ana. Ou Luisa. Ou Beatriz. Querida você. Querida, Não é que escrever cure. Não há cura, minha amiga, para o processo lento e deteriorante de humanização. Sim, porque você sabe: humanizar-se é arruinar um pouquinho a cada dia a fera que vive em nós. É inventar a bondade e também a maldade. Fazer-se tão […]

Palavra ardente

A palavra me coça e me arde. É tarde, é tarde,é tarde, Manoel. Tão tarde que me esqueci da última vez em que vi você: dançando madrugadas e ensinando os primeiros prazeres das flores. Toda flor goza, Manoel, acariciada pelo vento. Faz barulho de fada. Tem voz de vísceras arriscando o último suspiro. A palavra, […]

Episódica

Ícaro, Há anos que não lhe escrevo. Talvez séculos. Hoje durmo ao lado de um homem que me faz feliz – logo eu, veja só, que tenho esse medo danado da felicidade. Eu procuro, Ícaro, o caminho das pedras, ainda que diante de mim exista uma longa e mansa estrada margeada por flores. E nuvens […]

sua infância

Amor, A ideia da sua infância é meu alento. Você correndo atrás de patos querendo capturar estrelas. Sua maneira de inventar nas caixas vazias as brincadeiras mais plenas. Seus cabelos, seus passos, suas corridas. Toda a delicadeza que o construiu menino para sempre e ainda hoje. A minha infância, meu amor, perdi em algum bolso […]

Culpa

Minha querida e sábia Fernanda, Sabe que essa coisa de desaprender dói como se fosse matar? E o pior – o pior de tudo – é que não mata. E, deixando-nos vivos, faz com que precisemos juntar os pedacinhos de um espelho infinito que nunca mais refletirá o mesmo rosto. A culpa, meu bem: a […]

do dragão pálido da bondade

Querida Fernanda,   Tenho sentido falta de lhe escrever. Lembro-me da sinceridade com que me colocava nas cartas secretas – não sei se conseguirei fazer o mesmo em cartas abertas. Mas vale – sempre vale – a tentativa. Até porque, a graça de escrever cartas está nisso: sem querer, desfazemo-nos das amarras e conseguimos dizer […]

Fora de si

Você não consegue sair de si. Nem por um minuto. A voz alucinada – insistindo para que você faça – parece vir de fora. Mas nasce bem no antigamente que você guarda nas vísceras. Bem naquele primeiro dia em que você pensou que teria que dar conta de todas as contas do mundo. O primeiro […]

Pelo, sangue e voz

Doendo tanto quanto uma voltinha no inferno. Mas dizem que ser mulher é assim mesmo. Engano-me, engano-me, engano-me. Mês ou outro desisto de fazer parte e largo pra lá a cera nos pelos e o salto nos pés. Até – pouco a pouco – fazer parte novamente. Do mundo de enquadres. O quadro que me […]

Nosso tempo (ao pai)

O tempo, meu pai, não pede licença. Invade-nos, pois, adentro, adentro. Carrega-nos fundo onde não queremos ver. Por isso, quando é madrugada, as memórias mais doces aparecem feito demônios assustados. Espíritos saudosos. Almas sofredoras. O tempo em que vislumbrávamos o mar. O tempo em que a chuva era amiga. O tempo em que conversávamos com […]