Retorno

Querida Fernanda, De vez em quando escrevemos uma à outra. De vez em quando paramos. Da última vez eu precisei me recolher no infinito. Nem te conto. Fica, aliás, quase impossível contar sem doer. E – oh, deus – dizem que a palavra pode curar. Mas acontece que, para curar, ela precisa passar por terrenos […]

Essa força

Essa doce força dos frágeis sem pudores jorrada na ordem da vida atiçando os humores há muito enterrados * Essa força macia das nossas memórias: o colchão o retrato o abraço o cuidado o meu choro-criança ,sua mão, meu amor * Essa força tão bela antiga surrada A potência da história cravada no corpo * […]

Carta a Ana. Ou Luisa. Ou Beatriz

Querida Ana. Ou Luisa. Ou Beatriz. Querida você. Querida, Não é que escrever cure. Não há cura, minha amiga, para o processo lento e deteriorante de humanização. Sim, porque você sabe: humanizar-se é arruinar um pouquinho a cada dia a fera que vive em nós. É inventar a bondade e também a maldade. Fazer-se tão […]

de coisas miúdas e de feras

  Medo de coisas miúdas. Insetos e aranhas. Sem qualquer razão, uma vontade de matar. Vontade, não: necessidade. Medo produz necessidades – ou assim faz com que nomeemos essas forças tristes que nos tomam. Paralisam. Dizem todos os nãos do mundo ao desejo. De viver e deixar viver. As coisas miúdas vivem. Seguem seus rumos […]

Ela vestia azul

Ela vestia azul e lhe caía bem. Fazia tempo que não reparava nisso: o corpo, a alça do vestido, o delicado movimento dos quadris. Olhos pintados fazendo um brilho magnífico. Ela queria mostrar. Ah, queria mostrar. Queria mostra a ele que estava bem. Sempre achou que abrir o coração era o mais belo e honesto […]