de coisas miúdas e de feras

inseto   Medo de coisas miúdas. Insetos e aranhas. Sem qualquer razão, uma vontade de matar. Vontade, não: necessidade. Medo produz necessidades – ou assim faz com que nomeemos essas forças tristes que nos tomam. Paralisam. Dizem todos os nãos do mundo ao desejo. De viver e deixar viver. As coisas miúdas vivem. Seguem seus rumos rodeando lâmpadas ou se embrenhando no perigo do escuro. Tecendo teias, respirando, fazendo a natureza acontecer sem pretensões.

Coisas miúdas seguem seus rumos. Sem medo. São minúsculas feras deste mundo. E as feras, minha amiga, as feras não temem a vida. Nem a morte. Não temem a deliciosa renovação do tempo. A decomposição, o início e o fim. As feras, aliás, desconhecem o fim. Sabem que hoje. E simplesmente hoje. Quase que como sob um pedido dos deuses, tecem o amanhã sem nem notar. Seus ninhos, suas crias, suas teias, suas fomes.

Os seres miúdos. Os seres miúdos vivem. Como todas as feras do mundo. Sem medo. Esse pavor que me invade. Medo da vida. Tão atroz quanto a própria morte. Não. Mais atroz do que a própria morte. A morte é irmã – dizem alguns. Eu mesma tento dizer isso nas minhas madrugadas insones. Só para não ter tanto pavor do amanhã. A morte é irmã. E necessária. As coisas miúdas nos ensinam isso. Dizem que a borboleta não vive mais que um mês. Assim, depressa. Deixa rastros de néctar e pólen. Faz amor com as flores. Fecunda. E parte para sempre. O tempo, minha amiga, o que é o tempo? E que medo aterrador é esse que me faz achar excessivo ter mais muitos e muitos anos pela frente? Pois o trabalho, o amor, a doença, a decepção, o sufoco. É tudo tempo demais. Sou feita de matéria frágil. Tenho medo de coisas miúdas. Insetos e aranhas. O curto tempo de vida da borboleta. E palavras rudes. Tenho um medo desesperado de palavras rudes. Um desespero aterrador diante do espelho. Tenho medo de mim. E do silêncio que as tantas outras em mim fazem quando amanhece.

As tantas outras em mim são feras. Algumas, miúdas feito baratas. E tão terríveis quanto. Outras têm movimentos felinos. Corações equinos. E a disposição de um passarinho. Há aquelas que morrem no escuro. Outras duram pouco menos que um mês. Distribuem néctar e pólen. Fazem amor com as flores. Deslizam. Tenho feras que são serpentes. Tenho veneno e mel. Sei das asas. E, quando fera, posso voar. E aprecio o sangue. As vísceras. O gozo.

As tantas feras em mim não são boas. Nem más. As tantas feras em mim são minha história-fêmea. Meu desejo-fogo. Minha memória-deusa. As tantas feras em mim existem. Mas o medo, minha amiga, ah, o medo. O medo me faz matar aquele insetinho triste que atravessou meu caminho. Aquele insetinho lindo que tinha pouco mais de um dia adiante. Mas tinha tempo ainda. Covardia a minha: a de roubar a vida sem qualquer razão. Sem fome. Sem ânsia. Sem desejo.

As feras, minha amiga, as feras só matam porque a vida clama.Porque a fome pede. Porque o instinto dos deuses diz que agora é hora. Matar por medo é coisa de gente. E não tem perdão.

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