Ela vestia azul

Ela vestia azul e lhe caía bem. Fazia tempo que não reparava nisso: o corpo, a alça do vestido, o delicado movimento dos quadris. Olhos pintados fazendo um brilho magnífico. Ela queria mostrar. Ah, queria mostrar. Queria mostra a ele que estava bem. Sempre achou que abrir o coração era o mais belo e honesto caminho a se seguir. Agora, pensava seriamente que, por vezes, fechar a alma é o mais sincero e justo a se fazer. Porque uma alma adoecida, quando exposta, espalha as mais terríveis mentiras do mundo. Uma alma adoecida inventa dor onde não existe e faz um aumento danado nos perigos do mundo. Uma alma adoecida, ah, uma alma adoecida mente na intenção de encontrar um caminho. Mas está perdida na luminosidade excessiva dos dias.

Ela vestia azul e havia tomado o remédio de manhã. Carregava na bolsa uma outra pílula, feita para os momentos de desespero. Era quase certo que ali, fracamente iluminada, não deixaria transparecer aquela dor pungente. Não deixando transparecer, conseguiria conter com mais rapidez. Em segredo, era capaz de encontrar a própria cura num cantinho silencioso do pensamento. Ah, mas como era difícil o silêncio. Como era raro o segredo. Como era árduo encontrar a escuridão necessária para se fazer generosamente invisível. Vestida de azul e apenas mais uma na multidão de corpos alegres e dançantes. Vestida de azul e silenciosa. Vestida de azul e quase se esquecendo. Quase se esquecendo.

Ele a segurava na cintura e fazia cócegas de segredo no ouvido. Ela ria baixinho e depois um pouco mais alto. Tentava se esquecer daqueles que dominavam seu pensamento com o imperativo do cumpra-se. Tentava se esquecer do que ainda não havia conseguido cumprir, dos tremores no corpo, das tristezas da alma. Ele a acariciava mansinho e de repente ela rodopiava. Mais uma cerveja e ela agora queria um cigarro. Queria ferrar com a própria saúde de um jeito que fazia a vida parecer maravilhosa. Queria ferrar com as próprias certezas e pisar na aspereza dos dias. O colapso que teve na semana anterior havia sido quase sério. Quase motivo de preocupação. Ela havia procurado a mãe e narrado a própria morte. Da forma como desejava que fosse. Assim, em silêncio – e com o celular desligado. Ela queria silêncio. Mas agora fazia uma melodia deliciosa de dançar. Ela rodopiava e voltava para os braços dele. Como criança que brinca de jogar o ursinho longe só para depois pedir que a mãe busque de volta. Ela rodopiava e vestia azul.

Ela era mulher e tinha sorte. Ela era mulher trabalhadora e conquistava cada vez mais espaço. Ela tinha sucesso e pagava as contas. Mas, por algum motivo quase inexplicável, a antiguidade batia à sua porta e dizia que tudo poderia ser diferente se. E se. E a antiguidade ensinava sobre as deusas do mundo e sobre a chuva e sobre o tempo para olhar para dentro de si e para os arredores das coisas. E ela rodopiava mais uma vez sonhando com uma casa no campo. Com o fim de tarde. Com o amor e com as flores. Com as mães que acalentam. Com a primeira infância. Com a escuridão.

Ela amava a escuridão. Amava as mãos dele apertando-a suavemente. Ele a amava. Por isso segurava sua cintura e a fazia rodopiar longe. E depois voltar. Ele sabia que ela voltava. Mesmo após os mais terríveis colapsos. Ela vestia azul e dançava.

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