Ainda que…

Ainda que murcha, uma flor
Ainda que seco, um riacho
Ainda que triste, um dia de sol:
as coisas guardam em si
a memória do que foram
a semente do que podem
a espera de um porvir.
As coisas guardam saudade
desejo
e poesia:
o meu quarto guarda a infância
os seus braços guardam os meus
nossas roupas no varal
guardam a nossa rotina
– cheia de ânsias de amor.
Guardo ainda em mim palavras
que um dia hei de dizer:
a voz que me é tão doce
um desejo de existir.
No caderno, um rabisco
Na varanda, folha seca
– e a saudade das flores
que esqueci de regar.
Ainda que apagada
– feito um retrato antigo -,
Ainda que cheia de rasgos
– feito um lençol bem gasto -,
Ainda que quase sem cores
– feito uma memória vaga -,
Guardo em mim a vida
em sua potência de glória
em sua vontade de fúria
na natureza-devir:
que não promete, mas cumpre
– seja o que for,
germinando
(farto de dor, sufocado),
um dia haverá de nascer
como esperança de um novo
destino,
caminho
ou fim.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s