Quando tudo para de funcionar (Benzodiazepínicos II)

E, de repente, tudo parou de funcionar. O rivotril e os encontros semanais: breve meia-hora de conversa pra afagar sintomas. As flores também pararam de funcionar. As carícias. E o silêncio. De repente, a doença tomou corpo e forma: de repente ela cantou seu desejo pelos ares. De repente, a doença se abriu em flor e despedaçou todas as dores do mundo. Porque adoecer na alma – e no corpo da alma – é denunciar os mais antigos tremores e temores. Adoecer é contar a história do mundo em um só grito ou em desejosas lágrimas. Adoecer é dizer o que por muito tempo foi silenciado. Nem o benzodiazepínico dá conta: há momentos em que é preciso correr liberta e alucinada. Anunciar aos deuses o poder do escape. Dizer que não se cabe mais em si.

Digo, é claro, que não é um processo simples. Faz dor, faz sintoma, faz fúria. Faz medo de perder a luz e as estribeiras. O respeito. A lucidez. Faz medo de perder o amor – próprio e do outro. Faz grito. Adoecer não é solução – oh, jamais. É aquilo que acontece quando falharam todas as propostas de soluções. É aquilo que acontece quando se insiste na desistência da vida – ou quando se é, lentamente, forçado a desistir do voo. É aquilo que acontece quando chega o limite: o ponto-auge da dor. Adoecer é quando se precisa dizer: chega! É quando nunca-mais. É quando nem mesmo a saudade faz sentido. Adoecer é sentir falta de si. E da lua. Tudo para de funcionar. Caminhadas no fim da tarde. Eternas reclamações. Pílulas para silenciar a alma. Nada, nada, nada mais funciona. Só o desejo – aquela semente silenciosa que aguarda a chance de germinar. Miúda, delicada, frágil. Quase morta, mas insistente. Persistente. Fazendo cócegas e feridas lá dentro. Adoecer na alma – e no corpo da alma – é denunciar todas as grandes e pequenas atrocidades que são feitas contra a vida a cada instante. Adoecer na alma, meu amor, não é um caminho para a morte, mas um grito desesperado da vida que ainda insiste em acontecer.

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