A outra parte da vida

Minha alma clama por liberdade. Anseia pelos sem-limites do céu. Deseja. Afirma. Minha alma me grita e me chama. Plena de raiva. Plena de encanto. Plena de amor. Eu, surda aos seus apelos, finco os pés onde parece seguro. Onde a vida parece encontrar seu doce repouso de morte. Onde meu coração sufoca. Porque parte da vida sempre deseja uma paz de cemitério. Parte da vida – miúda e poderosa parte – pede por aquele silêncio sepulcral das verdades prontas. Essas que não admitem palavra em contrário. Essas que não admitem desvios. Parte da vida é aquela verdade que veio antes de nós. Segredos de família. Certezas da carreira. Verdades do trabalho. Linhas duras. Retidão. Parte da vida me aperta e me mata. Monocórdica no “faça-se, cumpra-se e depois que se descanse em paz até amanhecer novamente”. No batente. Na rotina. Na paz – oh, na triste paz dos que se acomodaram para sempre. Parte da vida é inteira demais e acredita na felicidade para sempre. Parte da vida se acredita feliz.

A outra parte, no entanto, inventa seus jeitos de cantar ânsias e dores. A outra parte – intensa e silenciada parte – faz par com a alma que ensaia liberdade. A outra parte é uma infinidade de fragmentos alucinados. Insetos ensandecidos em busca de luz – uma luz, por favor, que não tema o escuro de nós. A outra parte é esse desejo secreto que se confunde com medo. O desejo de escapar. Desviar o rumo. Quebrar. Parir.

A outra parte sabe – como sabem as crianças e as feras – que a felicidade não existe. É invenção dos donos do tempo e do dinheiro para nos distrair do desejo pulsante e rasgante que nos faz tecelões de destinos. Criadores. Poetas.

Como sabem as crianças e as feras, a outra parte sabe muito: conhece os enredos frouxos dos deuses. As linhas tortas. Sabe que o amanhã a ninguém pertence. E que pouco vale acreditar no imutável.

A outra parte sabe que o amor é um voo. Que a verdade é um fragmento que se liquefaz diante do sonho. Que o mundo é uma dança infinita de transformações. A outra parte da vida acredita na morte não como silêncio, mas como uma melodia suave da alma. Como o princípio do novo. Como um pedaço de si.

A outra parte da vida ora rasteja, ora flutua. Mergulha e dança. Dói. E sabe curar. A outra parte da vida sabe que nunca se pode saber por completo. É incompleta. E sempre deixa caber um pouco mais, enquanto se desfaz aos poucos de pedaços gastos de si.

A outra parte da vida respira. E tem uma paciência danada. Mais dia, menos dia, irrompe em nós. Leve feito a luz. Bela feito a escuridão.

A outra parte da vida é deusa. De tudo o que ainda não há.

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