Quebrou-se

espelho

Quebrou-se. Em público. Numa praça de alimentação lotada. Frieza no shopping: uma alegria vaga e indefinida perpassava a todos. Nem parecia real, mas era quase confortante: a leve crença de que, apesar dos pesares, consumir é possível e viver é quase crível. Até que ela se quebrou. Em público. Como que dizendo a verdade da dor funda que há muito a tomava. Inteirinha. Como se lembrasse do dia em que ouviu a história da servente, miúda e sufocada, no banheiro de uma enorme exposição de arte. Como se lembrasse das vozes. Da própria voz.

A doença era agora a sua cura. Um jeito de dizer que, afinal, pouco importava tudo aquilo. As luzes, a alegria vaga e indefinida. O horário. Os prazos. O consumo. Aquela grana no final do mês. O orgulho de ter passado em um concurso público. A festa de todos os seus primeiros lugares – como são solitários os pódios!

A angústia era agora sua salvação. Um jeito de gritar que era preciso viver. Que era premente cantar. Urgências, urgências, urgências: era urgente gritar. E gritar. E gritar.

Quebrou-se. Como se fosse pássaro no ar. Espalhando penas em uma explosão de cores.

Quebrou-se. Como se precisasse. Como se renascesse. Como se fênix. Espalhando cinzas em uma explosão de amor. E ódio.

Quebrou-se. De um jeito mágico que fez com que as palavras de repente começassem a dançar novamente. Ela era poeta. E todo poeta precisa quebrar. Pra não morrer inteiro.

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