Cuidado de si

O cuidado de si como meta a ser cumprida. Devagar e com suavidade. Criando pequenos furos. Poros por onde a vida pode vir a passar. Fazendo cócegas – ah, a vida tem dessas coisas. Treme ali dentro: nos rasgos. Nos furos. No oco de nós.

O cuidado de si como carinho a ser empreendido um pouquinho a cada dia. Ontem você acertou tudo. Hoje você deixou escapar um erro: chegou atrasado para um compromisso, esqueceu-se de um prazo a ser cumprido, falhou na gramática, tropeçou na entrada de casa. Hoje você fez um ato. Falho. E, no desencaixe das durezas cotidianas, achou a brecha: o espaço secreto por onde passam os anjos. Os demônios. Os uivos das feras sofridas. E a luz. A brecha: uma perda de sentido. Um jeito de fazer diferente. Um rombo na prudência. Uma gargalhada fina no ouvido atento da lucidez. E tudo se desfaz em pétalas e pelos.

O cuidado de si como um descuido necessário: hoje você errou. E desde então dança com as brumas da alegria. Feito borboleta de asas tortas. Sabe que é falha. Sabe que é rasgo. Sabe que é furo. E nunca mais – ou até o próximo compromisso cravado nas horas – você acertará novamente. São os passos bêbados, meu bem, os mais belos de todos.

O cuidado de si como erro a ser cometido. Pra não morrer sufocado na certeza do dever cumprido.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s