Profecia dos invisíveis

Ela me veio contando que a irmã morreu assassinada enquanto dormia ao relento num bairro distante. Ela me veio quase sorrindo. E se lembrando de mim. Ela: menina que era naqueles tempos. Menina ainda, cercada de porvires. Na mão esquerda, a mão da irmã. Pedia uma moeda, um agradinho de nada. Dizem que para tomar um trago. Quem pode saber? O corpo pertencia ao céu e às estrelas. Aos homens de coração duro. Ao destino, ao deus-dará: sabe-se lá. Ela me veio e cresceu. Contaram-me depois que andou quebrando vidros de uma loja qualquer. Não tremi. O vidro da loja pouco me importou: doía-me mesmo a irmã morta sob os olhos atentos da lua. Doía-me mais a dor da que ficou e que, segundo o moço da loja, morreria cedo tal e qual a irmã. Doía-me de repente a minha própria dor aberta em flor: humanizar-se é cavar uma ferida cada vez mais profunda. Dói-me a fome da menina. O relento. O luar. Dói-me o destino – o meu próprio, o dela, o nosso. Dói-me a chuva e dói-me a voz sufocada de quem não aprendeu a gritar. Era uma vez Macabéa. Mas ela não quebrava vidros de lojas desavisadas. Nem furtava, nem fumava. Ainda assim, morreu cedo. Tal e qual. Não há o que salve. Como sempre canta a profecia dos invisíveis.

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