Para ela

Eu quase ouvi a voz dela dizendo que tinha medo. Medo, medo, muito medo. Eu quase ouvi a voz dela arranhando minha alma. E combinei com a minha – vozes sufocadas. Vozes de quem um dia sonhou. Vozes de quem não tem pressa de acordar. De quem aos poucos passou a temer o sol e as calçadas. As andanças. Os caminhos. Eu tive medo, muito medo: por um bom tempo quis me esconder de tudo. Dos enfrentamentos. Do desejo. Por um bom tempo temi a minha própria palavra, pois ela desvelaria meus demônios. Meus ardores. Minhas feridas. Trêmula, guardei e guardei e guardei. Com medo de ser tocada mais uma vez por aqueles que me trairiam de mansinho. Medo de gente. Medo, medo, medo, medo. Tanto medo que de repente não tive mais movimentos. Até que ouvi a voz dela. Dizendo que também sufocava de medo. Lembrando-me do amor: o medo, meu bem, convida o amor a uma dança perigosa. E o amor – puro e inflado – dança. E dança. E dança mais uma vez. O medo dela faz tremer o meu. O amor me coloca em movimento. Sei, meu bem, que posso me enlaçar novamente com demônios sorridentes. Esses que me tomam pela mão e me dizem que – oh -, a culpa, a culpa, a culpa sempre foi minha. Sei, meu bem, que expor a alma é entregar-se ao risco da morte. Mas por ela eu me abro mais uma vez. Por ela eu permito que outra vez me toquem. Por ela estou aqui: deixando que a palavra solte meus demônios: são meus e são dela. A vida não é fácil, não. Aperta tanto que parece a morte. Mas aí está. Pedindo passagem. Como ela bem me ensinou.

E eu a amo. E eu – com o infinito amor que todos os deuses ensinam – a amo.

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