Menina

Querida menina,

Você é feita de memórias que desenham todo o seu corpo – cravadas nele feito miúdos diamantes. Machucam. E curam. Ontem mesmo você disse as palavras que teve vontade de dizer e a poesia retornou por uns instantes. Mas você hoje teme a poesia porque ela carrega lembranças daquela primeira dor. Quando seu pai. Quando sua mãe. Quando sua professora. Quando seu chefe. Aquela primeira dor que nascia do outro enorme. Aquela primeira e repetida dor. Várias e várias vezes. Querida menina, foi assim que você deixou de ser bailarina. Sereia. Fada. Foi assim que você se esqueceu de inventar as palavras. E do prazer imenso que invadia todo o seu corpo quando você se espremia lá embaixo. Você se esqueceu de gritar. Você se esqueceu de cantar. Você, menina, onde está?

Nos véus que lhe acariciam a pele – os pelos, os fios – quando a madrugada vem? Nos olhos do seu amado quando o sol começa a nascer? Na música que a abençoa a caminho do trabalho? Na chuva que a acompanha quando você  decide voltar?

Menina, você está nas estrelas. No orvalho. No luar. Você está nas letras e na primeira canção. Menina, você está na chuva. No fogo. No adeus. Menina, você está. Quando se lembra de como cantar. Quando reaprende a voar. Quando chora. Acalenta. Faz amor.

Menina, você está. Nos leves passos de deus. No rastro. Na luz.

Menina, você é meu espelho. A primeira parte de mim.

Antigamente. E sempre. Disso são feitas as fêmeas.

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