Depois

Não querendo incomodar, sustentava o peso de todas as dores do mundo. Como se salvasse a própria mãe, segurava a mão do transeunte agoniado. Adiantava-se às angústias e às necessidades do outro. Punha a mesa do café da manhã às três da madrugada e já adiantava a angústia que sentiria no final da tarde. No amor, esquecia-se do próprio gosto e do próprio gozo. Abria as pernas e deixava que ele roçasse por dentro até o ápice – dele, dele, dele. Segurava as pontas. Ajeitava de tudo um pouco. Queria salvar e salvar e salvar. Poucas vezes se olhava no espelho. Poucas vezes reparava que o desenho de sua sobrancelha era fenomenal – mais belo do que o de todas as estrelas da TV. Poucas vezes sorria e raras vezes dançava, embora seu rebolado fosse um encanto surpreendente. Evitava o prazer, pois precisava pensar e pensar. De pensar, construía castelos mágicos de felicidade que só poderiam ser habitados depois da salvação do mundo. Só poderia habitar a si mesma depois da salvação de tudo o que vive e sofre. Depois de deus. Depois do trabalho. Depois do homem. Depois da mãe. Ela só seria feliz depois – bem depois. Agora, meu amigo, era hora de cuidar. E ela cuidava tão bem como se já não se lembrasse mais. Daquela época mansa em que recebia carinhos e ainda sabia rodopiar feito borboleta na sala de estar.

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