Palavra ardente

A palavra me coça e me arde. É tarde, é tarde,é tarde, Manoel. Tão tarde que me esqueci da última vez em que vi você: dançando madrugadas e ensinando os primeiros prazeres das flores. Toda flor goza, Manoel, acariciada pelo vento. Faz barulho de fada. Tem voz de vísceras arriscando o último suspiro. A palavra, Manoel: a palavra é tão tarde que hoje mesmo me vejo morta – como se os séculos tivessem me engolido para sempre. Eu amei, Manoel: amei cada gota do meu suor. E cada plano. E cada desejo. Amei, Manoel: a crença e a vontade de viver. Amei. Amei. Amei. Experimentei o primeiro gozo fino do amor. Acreditei no sangue que findava a virgindade. Acreditei no futuro e nas ondas do mar. Amei. Amei. Amei. Hoje me recolho funcionária pública. E tudo o mais é um retrato publicado em facebook. E dói, e dói, e dói. O poeta bem sabia. Todas as Itabiras são hoje escombros. A felicidade é uma carícia na memória. A história é ruína. É tarde, Manoel. Você é como se fosse meu pai. E meu pai é o homem da história. O homem das ruínas. O homem da saudade. É tarde, Manoel: já não tenho aquela fé. O sangue é ralo. E só a palavra me salva. Só a palavra me goza. Feito a flor. Feito a última flor do outono. Despedindo-se amarela da tarde fria.

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