a palavra

Sinto falta de mim – alegremente nua ao seu lado. Sinto falta de mim  – sensível e aberta: a pele revestida de arrepios, a alma desaguando aromas de flor e mistério. Procuro-me no caderno de rabiscos na cabeceira da cama. No seu ombro forte e nas suas mãos ansiosas. Procuro-me sob o tapete, em meio à roupa suja, no canto, no canto, no canto. Procuro-me desesperada: era uma garota, uma borboleta e uma vontade enorme de qualquer coisa que não se pode nomear com clareza. Um luar dilacerado. Uma alfazema dourada. Um rasgo extasiante. Uma pele em broto de alecrim. Um grão de poeira na sola da mesa e uma bicicleta desgovernada nos anéis de saturno. Folhas e temperos coloridos. Pimenta e mel. Um jeito de cozinhar que se parece com fazer amor. Uma pétala. Uma lança. Uma cor.

Sinto falta de mim, meu bem: quando aconteceu pela primeira vez a poesia lancinante. Eu era a dor e a dor era palavra. Sinto falta de mim, amor, e da palavra que eu não disse. E a palavra fazia corredeiras e orações: lançava-me aos céus dos deuses pagãos e ao inferno cristão. A palavra brotava pecado e experimentava o primeiro toque proibido. Permitia-me deitar-me com uma dama tão nua quanto a terra – mãe de todas as glórias. Permitia-me dançar em chamas pelo jardim do éden e oferecer aos deuses a fenda de mim: úmida e cintilante feito o primeiro orvalho da manhã. E então eu era a virgem, porque a palavra assim permitia. E então eu era a vergonha de deus e os mistérios desciam do meu seio esquerdo até o fundo sem fundo entre as minhas pernas. Eu era, meu amor, e a palavra não me deixava mentir: quando fazia cócegas lá embaixo e eu apertava um pouco mais para sentir até o último grito abafado. Eu era a vulva. O grelo. O arrepio. A minha língua lambendo suave cada vontade de mim. A palavra, meu amor, a palavra: oh, é tão feia a palavra. É tão doce a palavra. É tão ácida a palavra: como o gosto de mim. A palavra é um gozo. E arde. Como tudo aquilo que não se pode dizer.

Como o que não tem nome, mas urra. Até a hora da nossa morte. E de todas as mortes depois.

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