Episódica

Ícaro,

Há anos que não lhe escrevo. Talvez séculos. Hoje durmo ao lado de um homem que me faz feliz – logo eu, veja só, que tenho esse medo danado da felicidade. Eu procuro, Ícaro, o caminho das pedras, ainda que diante de mim exista uma longa e mansa estrada margeada por flores. E nuvens delicadas prometendo algumas gotas de frescor para me aliviar o cansaço.

Eu poderia dizer, é claro, que tudo começou com a angústia de minha mãe. Mas isso seria apenas meia verdade. Sou um pedacinho de cá, um pedacinho dali, e uma parte enorme da revolução que faço aqui dentro com uma infinidade de pedaços colhidos aí fora. E você, querido, não me deixa mentir: todas as vezes em que se queixou dos meus excessos – e foi embora tempestuoso rumo ao sol – eu soube que precisava respirar ou acabaria por ser aprisionada nas minhas próprias vísceras expostas. Atada, amor: aos laços de mim. Todas as vezes em que você se queixou, eu reaprendi o rumo belo e enfadonho da estrada florida.

O homem do lado de mim tem olhos de menino e uma vez segurou o meu corpo com um desespero que só os que amam são capazes. O amor, querido Ícaro, nada mais é que a arte de saber segurar um outro corpo quando ele está prestes a desabar. Mas eu dizia, eu dizia, eu dizia. Ah, eu dizia da angústia da minha mãe. Que – hoje sei – também sofreu e sofre do mal do amor: a entrega excessiva a tudo o que parece valer a pena. Um apreço pelos lampejos de felicidade que a vida traz. Uma vontade. Uma vontade.

Pois eu digo hoje – e diria agora para minha mãe: a felicidade deve ser tratada com muita delicadeza e pouco alarde. Deve ser uma dança delicada na sala vazia, um suspiro inaudível na varanda, um cafuné, uma alegria fina de contemplar o início da manhã. Deve ser o instante e no instante captada. Oh, que grande mal faz alimentar-se da felicidade. Nela mergulhar desesperadamente. Com entrega total. E os projetos, os planos, os sonhos. Tudo ao mesmo tempo agora e para sempre, amém, Senhor, amém. Seria isso o que chamam de episódio maníaco?

Experimento-o quase sem notar. Apresso-me a falar do que amo e vislumbro diante de mim todas as promessas de todos os deuses. Mania de você, Ícaro, e dele e dela e daquele novo trabalho mágico em terras distantes. Mania de estrada Ícaro, e de meus passos e de acreditar que o mundo merece cada retalho pulsante de meu coração trucidado.

A felicidade, meu amor, deve ser tratada com muita sutileza. Divido com você uma taça de vinho. Digo que vale a pena. Deitamo-nos juntos e, quem sabe, tocamo-nos com ternura. Gozamos até – nada impede. Saboreando cada instante com sobriedade.

Antes que venha, amor, o grito. Antes que venha, amor, a dor. Antes que volte, amor, aquela coisa noturna que me arrasta para os últimos fundos da escuridão. Onde moram caixas vazias e vontade de nada.

Episódio depressivo. Um rastro de mim, meu bem. E a morte.

Adeus, adeus, adeus. Por todos os séculos e para sempre te amo no homem que ama em mim.

Isabela

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