Ilógica

A lógica, meu bem, nem sempre me cabe. Neste exato instante olho ao meu redor e vejo a vida quase como ela é – ou como a razão sempre me ensinou que ela deveria ser: vasta, repleta de injustiças, inevitavelmente dolorosa, permeada por momentos de paz, um tanto quanto irônica, decepcionante e surpreendente. Sinto-me, afinal, irmã dessas injustiças que todos os dias nos tomam. Sinto-me tão injusta quanto injustiçada e isso não me provoca mais do que delicadas cócegas nos nervos mais expostos.

Se você conhece bem aquela pontada funda que nos acomete quando a lógica sai para dar uma volta, você me entenderá: mergulhada no ilógico, meu corpo paralisa ao infinito. É como se de repente a ideia de me levantar para caminhar até ali para fazer o mínimo – tão mínimo – que tem que ser feito me causasse um calafrio. No mundo do ilógico, meu amor, o mínimo adquire o tamanho de um buraco negro no infinito do universo. O mínimo: levantar da cama. O mínimo: dar uns três passos até o telefone. O mínimo: fazer uma ligação. O mínimo – oh, meu deus, o mínimo: atender o telefone já sabendo que dali virá um pedido sem fundo de alguém tão sem fundo quanto eu. No ilógico, meu bem, eu não consigo acessar a realidade concreta de que, afinal, aí está a vida e ela muitas vezes precisa receber um delicioso e sonoro “não”. Que é possível criar miúdos limites para o fundo sem fundo do outro. Criar limites para o fundo sem fundo de mim.

Quando a lógica sai para dar uma volta, meu amigo, o reinado é dessa pontada fina e fria – que começa no ombro feito um primeiro peso e que se espalha por toda a extensão do corpo. Fazendo com que ele cale. Fazendo com que ele trema. Fazendo com que ele chore. Quando a lógica sai para dar uma volta, o corpo não sou eu.

E dá medo de que ela nunca mais volte para ensinar – mais uma vez – que, sendo a vida não tão linda assim, é preciso construir não apenas pontes, mas também paredes. Construir fortes, meu bem, para proteger a vida daquilo que a vida deseja engolir.

A lógica, meu bem, para proteger a potência do ilógico em mim.

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