Culpa

Minha querida e sábia Fernanda,

Sabe que essa coisa de desaprender dói como se fosse matar? E o pior – o pior de tudo – é que não mata. E, deixando-nos vivos, faz com que precisemos juntar os pedacinhos de um espelho infinito que nunca mais refletirá o mesmo rosto.

A culpa, meu bem: a culpa me pareceu, por muito tempo, prima-irmã da bondade. Assim, tomada de neuroses infinitas – afundada na culpa, culpa, culpa por todos os males do mundo – eu me acreditava boa. A filhinha mais querida de um deus cujo nome quase sempre esqueço. Qual foi a minha surpresa, então, ao perceber – nesse árduo exercício de desaprendizagem – que a culpa se parece mais com uma auto-importância exagerada? Culpa, meu amor, é a mais vaidosa das sensações de onipotência. Pois se sou responsável pelos males do mundo, é porque me invisto de um poder alucinado. Indestrutível. Deusa das deusas. Condenada à glória infinita do sacrifício. A virgem-mãe sem humildade. O útero em que se criam os males e a esperança. Pandora desesperada. A dona daquela caixa secreta onde está guardada a cura para todas as guerras, todas as fomes e todos os dissabores.

Mas dói. E se digo que dói, eu sei que você acredita. Dói como arrancar a farpa que tão bem se ajustava à carne – e que, de dor acostumada, parava de incomodar. Mas é preciso arrancar, é preciso arrancar, é preciso arrancar. Dói. Mas é bom. É, como você escreveu, “estar um pouco vivo”. Um desespero, minha amiga. Uma liberdade. Porque de repente, livrando-se da culpa, você se percebe não tão importante assim. E você se dá conta de que, afinal, as pessoas nunca se importaram. (elas fingem, é claro, é preciso fingir que se acredita no certo e no errado)

Nunca se importaram se você prefere dançar nua na madrugada a realizar-se num dia honesto de trabalho árduo. Nunca se importaram se você aprecia tanto o próprio corpo que deseja dele um prazer dos infernos. Nunca se importaram se você não se importa tanto assim, se você prefere ficar sozinha, se você quer agora desaparecer em uma ilha deserta.

E isso dói, minha amiga. A liberdade dói.

A culpa é quase que uma deliciosa sensação de importância. Mas afinal, afinal… O mundo seguirá existindo se você sumir de repente. Se você voar para longe. E nunca, nunca mais voltar.

A culpa, meu amor, é um algoz e um alento. A culpa é mãe. Madrasta. Irmã. É o paizinho querido. O primeiro filho. E a fera da floresta escura.

Mas bondade, minha querida, bondade ela não é.  Nem quando inventa as cores de uma caridade bem talhada. Só que a gente prefere acreditar. E quem sou eu para arrancar do mundo essa crença tão delicada?

Se a gente inventa, Fernanda, eu continuo adorando inventar sua sabedoria. E sua amizade.

Com ternura,

Carla

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