Desadoecer

desadoecer

Desadoecer. Foi o que ele me pediu para fazer. Mansinho. Era uma quinta-feira e já passavam das vinte horas. Mas eu ainda não havia me despedido do dia-a-dia seco e maçante. Eu ainda não havia me despedido da dor. Difícil explicar, mas as oito horas diárias por vezes tomam conta de todas as vísceras. De todos os poros. E não há furo pra fazer passar.

Sabe o ar que invade os pulmões? Ele me vem carregado. Traz pontas duras de vaidade e medo, arestas de cobranças e uma dureza impenetrável. Chega ao sangue desoxigenando tudo. Sufoca-me as veias.

Desadoeça – ele me pede. Mas se soubesse que ainda não encontrei passagem. Nem uma portinha sequer. Nem aquela miúda pela qual a gente passa tomando um líquido mágico que nos redimensiona até o rastejar. Nem.

Desadoeça – ele me pede. Mas as minhas asas estão guardadas. Mas as flores murchara. Mas a vida, mas a vida. Dói-me a cabeça e eu preciso aprender o caminho para amanhecer. Sei que sempre soube ouvir histórias tristes. Mas não hoje. Não hoje. Hoje, o silêncio é meu amigo. E eu peço que faça um escuro bem suave para calar minhas vísceras.

Minha alma canta e desafina. Mas desadoecer é não temer os descompassos.

Imagem: de Edgar Degas

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