Incurável

Munch - O Grito

Escrevo para curar.

Mas não cura.

Insisto na luta.

E faço luto de mim.

Morri e morri e morri e morri tantas vezes.

E sigo pedindo perdão por ter morrido. Como se pudesse evitar. Como se fosse escolha. A crença no absoluto da escolha é um mal tão perigoso, mas tão perigoso, que nos mata um pouquinho a cada dia. Em verdade, em verdade vos digo: há momentos em que é preciso parar. Pela escolha de reconhecer que nem sempre se escolhe, de repente, matar a dor. É preciso deixar cicatrizar com cuidado. Dizer não. Decidir pelo “não” que o corpo escolheu. A vontade nem sempre é escolha. É premência das vísceras. Se a alma parou de cantar, que melodia lhe cabe? Quem lhe trará uma gota de sossego?

Escrevo para curar. Não por escolha. Por instinto. Mas não cura. Só vai montando sutilmente uma cicatriz que não ficará totalmente pronta. O sangue é forte e me vence.

Imagem: O grito, Edvard Much 

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