Pelo, sangue e voz

Doendo tanto quanto uma voltinha no inferno. Mas dizem que ser mulher é assim mesmo. Engano-me, engano-me, engano-me. Mês ou outro desisto de fazer parte e largo pra lá a cera nos pelos e o salto nos pés. Até – pouco a pouco – fazer parte novamente. Do mundo de enquadres. O quadro que me faço é o de uma jovem bonita. De trinta anos de idade. Dobras no corpo e coração na mão. Às vezes o espelho me risca em infinitas rugas: como se o tempo me roubasse mais cedo. Mas o tempo, minha amiga, sempre me pareceu um companheiro esquisito: aos treze anos eu já tinha oitenta, contemplando com seriedade os segredos de deus e da morte. Aos vinte e oito eu completei meus dezoito e dancei flutuante as belezas do amor. Aos trinta e cinco talvez eu já tenha as rugas dos noventa ou um certo olhar sábio e deslumbrado dos nove anos de idade. O tempo, minha amiga, me desfaz em aprendizados e me agarra em enganações. Machuca feito uma voltinha no inferno. Dança-me demônios coloridos. Empresta-me sua luz. Reinventa-me. Em nome da beleza, deixo que me puxem os cabelinhos miúdos das pernas. Em nome da beleza, faço dor. Não recomendo a você que faça o mesmo. Antes, insisto que aprenda bem cedo que os encantos do mundo são infinitos e que o amor tem várias e várias e várias faces. Insisto que não tenha medo do próprio corpo e menos ainda do sangue que dele escorre vivo. São seus ciclos. Seus invernos, outonos e verões. Suas primaveras. Seus tempos. E não doem. O que dói – mas dói de verdade – é a crença de que vermelho é mácula e de que o bom coração deve ser alvo, alvo, alvo feito a ideia pálida de um espírito de luz. Sem vida. Alvo, alvo, alvo: de todas as dores, sacrifícios, temores. De todos os deuses, algozes, senhores. Oh, amiga, oh, amiga: oh, não! Nosso espírito é rubro. Arde. Grita. Nosso espírito é gozo. Raiva. Paixão. Nosso espírito é sangue. Carne. Fogo. Era para que eu lhe dissesse assim: “torne-se bonita como deve ser e tenha esse canto macio dos anjos de paz”. Mas eu insisto em preferir que seja nua. Em pelo, sangue e voz.

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