Nosso tempo (ao pai)

O tempo, meu pai, não pede licença. Invade-nos, pois, adentro, adentro. Carrega-nos fundo onde não queremos ver. Por isso, quando é madrugada, as memórias mais doces aparecem feito demônios assustados. Espíritos saudosos. Almas sofredoras. O tempo em que vislumbrávamos o mar. O tempo em que a chuva era amiga. O tempo em que conversávamos com papai-do-céu e com os anjos e acreditávamos no futuro. O tempo em que o futuro era um mundo distante, distante, como lá no fim da estrada, como estar a caminho de. O futuro era uma imensidão de sonhos: a terra de vir-a-ser. Ah, meu pai, não sabíamos: mas vir-a-ser é o melhor dos mundos. O mais leve, o mais doce, o mais fértil. Enquanto eu sonhava o dia em que me tornaria, quase não me lembrava de aproveitar as alegrias do não-ser. E me esquecia de reparar as sementes na beira da estrada. Tornei-me, pois, despedaçada e cheia de saudades: sou todos esses fragmentos de histórias desenhados no meu corpo – sob a pele. Sou você, meu pai, e sou também a cigana que um dia leu-me um futuro que não aconteceu. Sou a menina do canto da sala, embrulhada em timidez e orgulho. Sou o laço desfeito, o primeiro amor e os filhos que virão. E hoje, ah, hoje o futuro tem mais pressa. É sempre logo ali. E tudo passa rápido demais. Hoje, devo adiantar-me aos perigos da estrada, pois um passo em falso é queda no precipício. Devo adivinhar o veneno e já ter em mãos – ou na alma – uma gota do antídoto. Hoje, meu pai, desconfio. Coisa que antes era impensável para mim. Desconfio até mesmo da flor. Até mesmo da flor. Hoje, meu pai, eu sou. E, se antes a grande tarefa era construir as bases para tornar-me, hoje o desafio é retomar a antiga arte de deixar de ser. Dura, permitir-me abrir em poros delicados. Deixar o ar passar. E a chuva. O corpo, o corpo. Saber o momento certo de abri-lo. Deixá-lo exposto ao amor. Aos pássaros. À poesia. A vida, meu pai, sempre retorna. E nosso tempo é cíclico. Você mesmo, veja bem: lentamente se torna menino outra vez. Cada vez que se esquece das palavras mais simples. Cada vez que brinca. Cada vez que é espelho de mim. Nosso tempo se encontra na estrada. E eu sempre desejo que o futuro esteja bem longe – como antigamente. Por amor a você, meu pai, e ao nosso tempo lado a lado.

Você percebeu a chuva? É meu jeito de adivinhar saudades.

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