Em nome dos pais

Deixei que entornasse um pouco em mim. A cerveja estava quente agora e tudo perdia um pouco da graça. Eu estava quase leve, fazendo uma alegria ensaiada: teatro quase bonito após mais de três copos cheios. Deixei que entornasse um pouco mais de si. Em mim. Lembrei-me vagamente de todos os amores que inventei quando era madrugada: um deles me carregava até os mistérios do proibido. E a beleza estava nisso. Em não poder. Em rondar, rondar e jamais tocar. Incestuosamente, o amor ao pai. Ele, em todas as partes de mim. Talvez o próprio deus. Que fosse. Subi as escadas cambaleante. Não fazia ideia do que encontraria lá em cima. Um deles segurava minha mão esquerda e dizia que tudo isso começaria a fazer sentido tão logo eu acordasse. Seria melhor se fosse um sonho erótico, mas era um absurdo feito de degraus moles que me flutuavam até os ares e depois até o fundo. E eles me acompanhavam, todos eles sem idade – todos eles me fazendo tentar entender quem eu era. Aos olhos do homem. Rabisquei qualquer coisa num canto de caderno: o nome do meu desejo. E hoje, por mais que tente, não consigo me lembrar. Essa é a grande sacanagem dos sonhos. O essencial fica sempre guardado sob um manto insondável. É como se quisessem ensinar que o essencial não existe. Pois sim, é isso. Eram homens frágeis e eles queriam ser meus filhos. Queriam ser meus pais. Queriam me definir a partir do que eles eram. A partir daquela fotografia colorida em que eu inclinava a cabecinha tão meiga que parecia a ponto de despedaçar. A partir dos olhos deles sobre aquela fotografia. Por causa disso, mais tarde, quando acordei, todos eles me estranharam. É que eu não queria mais brincar. Não queria mais estar ali. Na verdade, eu preferia a paz e meu silêncio e pertencia a um mundo no qual eles jamais entrariam. E esse mundo era escuro e fundo, por vezes sufocado por miúdas luzes coloridas e fumaças azuis: esse mundo era o meu refúgio e a minha resistência. O mundo ao qual eu pedia socorro quando me via farta de “cumpra-ses” e “faça-ses”. Pois que se danassem os prazos e que se danassem as dores agudas de quem há muito havia perdido a chance do gozo mais simples do mundo. Pois que se danassem suas amarguras e que se danassem se fossem sisudos, que se danassem suas responsabilidades, suas respostas certas para tudo, suas clarezas de entendimento, suas morais sufocantes. Que se danassem, principalmente, quando diziam que era por uma causa maior que faziam. E quando, por uma causa maior, insistiam em atirar os menores às covas de leões. Que se danassem, pois eu não mais entendia suas grandes causas. Desperta agora, após uma dança flutuante nas escadas deles, voltei-me para o único pai que realmente me importava: aquele que me ensinou a alegria do mar. Só a ele eu diria – e digo agora: quero ir fundo, mais fundo, mais fundo. Pois – revelo-lhe agora um segredo – eu sei nadar. Nasci sabendo. Para mais longe do que você imagina. Bença, bença, já é tarde. Sempre foi. O tempo, meu pai, não pede licença.

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