um conto

Contava um conto e aumentava uns três ou quatro pontos. Um lindo bordado feito com as mãos da alma. As mesmas que cuidavam dela desde pequena, quando fazia escuro. Bordava e tecia. Histórias sem fim. Desejava ter, ao final, um livro maravilhoso que mostraria para a mãe. Como quem exibe um tesouro. Era ela própria miúda demais para fazer qualquer coisa grandiosa que não fosse um jorro de palavras finas – ou ásperas, dependendo do momento em que lhe acometessem o coração. Era ela própria frágil e facilmente tocável. A dor vinha fácil: o dedinho na quina da mesa, os moradores da chuva, a morte de um jovem no pé do morro, a decomposição de um passarinho no fundo da terra, aquilo que não se pode saciar, os cabelos brancos do avô, a lua cheia, o jeito dele dormir e se fazer tão entregue. O tempo. O tempo talvez fosse o dono de suas mais doces histórias. O tempo voraz, algoz do desejo: e tudo, tudo, tudo passa. Mesmo o pai. Mesmo a chuva. Mesmo as deliciosas previsões de ano novo. Mesmo o destino. Mesmo as rugas. Mesmo as rugas. Pois se ao pó retornasse – e já nem mais rugas tivesse -, deixaria um conto para contar história. E, como em cada um deles, aumentava talvez mais cinco pontos, faria o bordado mais lindo do mundo com os fios da alma. Deixaria para a mãe um legado de saudades. Para a irmã, um pedaço do sol. E para todas as feras do mundo, suas entranhas vivas. Deixaria, pois, abertas as três principais feridas de sua história: o primeiro respiro, a primeira saudade, o último suspiro. E depois caminharia firme para a despedida. Diria que nunca foi uma mulher, mas infinitas partes de muitas. Permitiria, então, que o primeiro a levantar a mão puxasse o fio mais que delicado de sua história miúda. Tão miúda que não valeria mais que dois contos de réis, meio real ou um botão de concha.  Tão miúda que – pouco-a-pouco desfeita – não valeria mais do que o orvalho, a poeira, os restos de um cigarro. Tão miúda que seria levada pelo vento como que para sempre. Deixando rastro-nenhum. Compondo a chuva. Rasgando os últimos verbos. Um conto, um conto. Mais um seis ou sete pontos e um bordado de cores pálidas. Seria tão feliz quanto a morte. Deixando atrás de si nada mais que um vir-a-ser. Ela era possível. Tão miúda, mas tão miúda, que se tornava possível. Como a vinda do próximo verão.

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