Um tempo, uma vida, um destino…

Era uma vez um tempo em que não existia carreira, escola ou cadeia. Menos ainda manicômios, escritórios sem janelas e lares sem amor. Um tempo em que das pessoas não era exigido mais do que a capacidade de transformar as miudezas do mundo. Um mundo feito de poetas e rabiscadores de caminhos. Violeiros e crianças. Uma terra onde cada tempo tinha seu próprio tempo e a madrugada era conclamada a ser a hora sagrada dos namorados e das corujas.

Era uma vez um tempo em que trabalhar com as mãos era fazer arte e destinos. Em que feiticeiras eram donas da cura. E braçal era o trabalho dos fortes. Era uma vez um tempo do mato e das mulheres. Uma vida em que, diante da pergunta “o que você quer ser quando crescer?”, era permitido às crianças, tanto as meninas quanto aos meninos, responder que queriam ser mães – um trabalho mágico feito para contadores de histórias. E meninas podiam desejar ser meninos, enquanto garotos podiam sonhar ser mulheres. Os mais velhos trabalhavam arduamente na finalidade de se tornarem crianças. E todos podiam, quem sabe, querer ser árvore ou romã. Quiçá onça pintada a espreitar uma presa com seus olhos cintilantes. Desejar ser um búfalo, uma pedra. Uma correnteza.

Era uma vez um destino que nem eu nem você conhecemos. De se transformar em sangue e se misturar com a lua. Adormecer e cantar. Um tempo em que crescer significava ganhar asas, em lugar de engaiolar-se.

Era uma vez esse tempo. Quando a gente fecha os olhos e ainda acredita no balanço milagroso da rede na varanda.

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