Morte e vida aos novos trinta

Hoje me veio aquele sentimento quase místico de que o aniversário é o início de um novo ciclo de aprendizagens, doçuras, lutas e prazeres. O aniversário de trinta, então, é feito para contar história. Passei-o na estrada, entre sustos e melodias, entre memórias e saudades, entre desejos e reflexões – a estrada e suas incertezas, a estrada e seu modo nômade de estar sempre a caminho de. Passei-o na inconstância, no vento, no movimento de voltar para casa. O aniversário de trinta é um voltar para casa. Mas não uma casa qualquer. Não aquela antiga casa-prisão, cheia de verdades sobre nós e sobre o mundo, sobre a infância, a carreira, a maternidade, o sucesso, o casamento, o trabalho, o lar, a modernidade e os deuses. O aniversário de trinta é voltar para uma casa que nunca foi e que, no entanto, parece ter sempre estado ali – à espera de que abríssemos sua porta de madeira que range de alegria, dor e tempo. A velha nova casa dos paradoxos e das incertezas e da crescida e infante alegria que é dançar com a vida e com a morte. Sem medo.

A vida é a renovação de todos os votos que valem a pena. A memória dos dias em que houve mães e mãos que nos acolhessem e guiassem o caminho. O amor cheio de cumplicidade e ternura. O sangue fervendo de desejo pelo que há de vir. O devir. As crianças que moram em nós. E os pássaros. O nascimento de uma estrela cintilante. O parto de si. O princípio do caos. O desejo da morte.

A morte é a decomposição das certezas mais duras. A criação de novas moléculas mágicas que nascem da terra há anos cultivada. Flores vermelhas brotando no cemitério e ensinando que a ternura nasce do prenúncio da saudade. A morte é revolver o sangue sob o asfalto e encontrar ali os destroços dos sonhos perdidos. Renová-los, então, como quem faz feitiços. De repente voltar a acreditar nas flores e nas asas das borboletas. Na cura pela escrita e no milagre da multiplicação de pães e afetos. Decapitar alguns reis e dançar sobre o túmulos de ideias fracassadas. Saber que há uma infinidade de prisões no mundo e que uma delas rouba sem pudores o nome da Liberdade. Pegar a senhora Liberdade pela mão esquerda para aquecer-lhe o coração. Lembrar a ela que seu sinônimo é vida, não independência. Apegar-se ao rabo de uma estrela cadente.

Morrer é dançar com a vida e parir o novo. Dar à luz todas as mulheres do mundo. Todas elas com trinta anos e corações errantes. Nascidos nas curvas da estrada e de seus corpos livres.

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