Tremores

O medo era de outras vidas. Das quais ela se lembrava muito bem. Vidas muitas – quase infinitas – vividas desde que ela nasceu quase 30 anos antes. O medo nascia em 1983, 1990, 2000. O medo era presente em 2013. Faltava pouco para o seu aniversário e ela ainda temia a coisa dolorosa que era dizer “não”. E decepcionar alguém. Que importava, afinal, se decepcionasse a si mesma? E tremesse, tremesse, tremesse. Como se fosse morrer.

Digo dos tremores: era como se o corpo estivesse pedindo trégua. A guerra era antiga: ela silenciando os próprios movimentos em nome das vontades dos reis e rainhas. Reis e rainhas que eram pessoas quaisquer, com rostos quaisquer, mas que se erguiam majestosos cheios de mimos e vontadezinhas. E certezas. Também ela tinha seus mimos. E seus medos. Só não tinha certezas. Calava as vontades. E, na ânsia de perdoar o outro, esquecia de perdoar-se por tremer. Por tremer.

O medo era desde menina. O amor também. Mas dizem que o medo esconde o amor. O medo faz tremer. O medo é o oposto da vida.

Digo dos tremores. Eles são reais. O remédio faz passar. Mas só por instantes. Só a ternura tem efeitos mais longos. E qual o mal, afinal, de ser mais terna consigo mesma?

Pois a cabeça do rei deve ser cortada. As rainhas devem ser depostas. A terra, meu bem, a terra é de quem dá as mãos. De quem erra. Faz poesia. E dança sob a chuva forte. A terra é de quem ama. A terra é de quem, numa noite qualquer, consegue escapar voando. E entregar ao amanhã o restante do destino.

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