A criança

A criança fazia bico e fechava a cara. Quando não queria. Quando não gostava. Dizia que não, não e não. Era introspectiva e queria ficar silenciosa lendo revistinhas ou desenhando. Tinha medo do escuro e não adivinhava que, na verdade, era medo da solidão. Ou adivinhava, ora, adivinhava: as crianças sempre sabem.

A criança fazia sorriso e falava sozinha. Amava as histórias do pai. E rezava para que a mãe vivesse para sempre. Tinha medo de Deus. E, às vezes, carinho. Como se Deus fosse criança também. Sabendo que Jesus já foi menino, rezava o Pai Nosso com mais amor. E acreditava numa força milagrosa que só a oração podia fazer.

Queria morar no interior. Amava o mato e a casa da avó. Era delicada e assustada. Aprendia rápido. E morria de medo de errar. Tinha um segredo: aprendia melhor com o amor do que com a dor. O medo de errar deixava o coração dolorido. O amor fazia a alma voar longe e a criatividade cantar. Se a professora soubesse que o amor era sempre mais fácil, ah, se soubesse…

A criança resistia ao aprendizado pela dor. Sabia dizer não, não e não. Até que cresceu. E a poeta adormeceu.

(acorda, por favor!)

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s