Semente do que vier

Precisar de. De você. De seus braços. Da minha mãe. De cafuné. Abraço. Um espaço para chorar. Precisar do moço desconhecido que conta sua vida inteira enquanto sentamos juntos em um banco de praça. Precisar de um banco de praça, de espaços na rua, de tempo. Precisar de silêncio, introspeção, meu momento. Precisar da irmã, da amiga, de um filme para assistir juntinhos. Precisar de carícias, de um doce, da minha cama. Precisar da sua mão na minha. Das histórias do meu pai. Da minha casa.

Mentiram-me tantas vezes ensinando-me que o caminho para ser forte era nunca mais precisar. Se independente. Não chorar à toa. Guardar o que me treme à flor da pele. Guardar minha pele, meus rastros, minhas fragilidades, minhas ternuras. Não expor os afetos mais meigos. Envergonhar-me da dor. Ser dura. Impenetrável. Não me deixar afetar.

Pois digo-lhe- agora sem vergonha – sou porosa. Fácil. Deixo que entrem sem pudores. Cheios de amores. Permito que me seduzam. Me encantem. Desiludam. Curem. Machuquem. Poros abertos e coração exposto. Feridas livres. Alma. Alma.

Pois o mundo, meu amor, o mundo sem amor não é mundo. E eu prefiro pecar pelo excesso. Dessa força magnífica que me faz tão frágil. Eu prefiro, por paixão,dobrar-me ao vento, à água, à chuva. Dobrar-me à cigana que vem ler minha mão. Ao menino que me pede uma moeda e um pouco de atenção – e que, dizem, quer me enganar e, ora, gastará tudo com drogas. Dobro-me a quem me pede repouso. A quem me oferece um sossego. A quem chora. A quem arde.

Dobro-me e, de tanto dobrar, às vezes dói. Tal e qual aprendizados que a gente só consegue quando se permite falhar uma e depois outra vez. Como recordar, repetir e elaborar. Não se trata, meu amor, de estar fechada a outras possibilidades de ser. Trata-se de poder dizer ao mundo o que a minha história produziu em mim. O que produzi nela. Sem vergonha de ser. Frágil. Dobrável. Imensa. Forte.

E tão miúda quanto grãozinho qualquer. Semente do que vier.

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