A fera

Busco inspiração nos olhos de quem faz da dúvida sua força. E conhece os perigos disso. Começar por duvidar de si: analisando todas as pontas soltas do próprio pensamento, das próprias crenças, das próprias – e inventadas – verdades. Dançar com a incerteza e mergulhar fundo nas desilusões. Saber que, embora o chão pareça firme, seu caminho não está traçado. E não há um deus-pai-todo-poderoso que a colocará magicamente em um trono cravejado de brilhantes por você ter sido uma boa menina. Uma excelente menina.

Uma excelente menina cheia de pensamentos perigosos. Peço desculpas ao deus-pai-todo-poderoso e me concentro nos pensamentos perigosos. Aprendo a duvidar até mesmo da minha mãe. Das minhas mãos. Da minha lógica. Aprendo a duvidar do meu pai e de todos os deuses ancestrais. Peço perdão, perdão, perdão: ajoelho. É que, na arte de aprender a duvidar, coloco incertezas também na tal liberdade-de-pensamento. Não existe pensamento livre e o meu está amarrado a todos os nomes que me deram: Carla, Carlinha, Jaia, Princesa, Filhinha, Menina, Criança, Mulher, Boneca, Bebê. Todos os sobrenomes que me adjetivaram: Bonita, Gatinha, Pequena, Tímida, Bicho-do-Mato, Insegura, Louca, Tensa e feminina, feminina demais. Como se flores fossem feitas para serem arrancadas. Como se a parte fêmea do mundo fosse feita de pétalas. Como se minha voz baixa fosse fragilidade.

Não existe pensamento livre. A ideia se amarra perigosamente à ideia anterior. E houve uma ideia que nasceu antes de mim. Houve várias ideias que nasceram antes de mim. E que me constroem. E que me condenam. E que me libertam. E que me paralisam. E que me matam. E que me pariram assim, linda e torta. Meio que tomada pela ideia de um deus. E atraída pela ideia de uma deusa. Meio que filha. Meio que amante. Meio que freira. Meio que mãe. Meio que vadia-insana-cheia-de-ódio-no-coração. Essa é conhecida por poucos. Dela eu nunca duvido. Por isso busco escondê-la.

Mas, meu amor – meu amor! De tanto duvidar, fiquei ontem cara a cara com ela. E ela queria gritar. Ela queria cantar. Ela queria me dar a mão e me mostrar que nem sempre o vermelho é perigoso. Ela me contou um segredo: todas as vezes em que a escondi, um vento secreto me tomou algum pedaço importante. Todas as vezes em que a escondi, eu escondi a mim. Sou ela. Que também é dragão. Bruxa. Sereia. Puta.

Sou desejo. Compulsão. E sorte. Quero e, quando quero, é como se minha alma inteira vibrasse. E cantasse. Era uma vez uma menina. E, porque seu desejo era tão grande que chegava a querer estourar o peito, ela aprendeu a amansá-lo como quem quer silenciar a felinidade de uma onça-bebê. Mas a fera, meu bem, cobra um preço. Cresce pálida e tímida, até que um dia. Mas que dia?

A fera. Minha bruxa. Minha fada. Meu espelho.

As garras, meu amor, eles não enxergam, mas aqui se escondem. É no espelho que ela reside. Mas não é inimiga, meu bem: é minha irmã. Minha amiga. Arranha as paredes de dentro de mim. Só pelo desejo de sair.

E eu sangro, meu bem. Eu sangro. Em nome do nome que insisto em calar.

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