De Joelhos

Frustrou-se. Nem sabia que desejava tanto ser vista. Costumava sair de casa escondendo os olhos, os seios, o coração. A alma e o desejo. Curioso era que, recentemente, havia lentamente deixado o véu cair para sempre. Havia feito a ligação que não podia. Gritado as desmedidas do amor.

Não tinha método: isso era fato.

Tudo o que fazia portava um tanto de intuição. Tanto o pudor quanto a luxúria. Era péssima ao tentar seduzir numa dança lânguida de cinta-liga e pétalas vermelhas. Quando, no entanto, abocanhava com vontade e lambia com voracidade – quando apertava e sussurrava as palavras erradas -, então, ah, então o amor era inteiramente dela: dama ajoelhada aos pés da cama. Fazendo com que ele quisesse ficar mais um pouco e talvez mais umas horinhas.

Tudo o que fazia portava um tanto de intuição. O pudor, também o fazia ajoelhada. Aos pés da virgem, era claro: passou várias juventudes pedindo perdão. E muitas outras procurando em algum lugar no chão a beleza perdida – alguém via, mas ela não sabia quem. Alguém vinha, mas ela não sabia o porquê. Se soubesse, teria ajoelhado mais cedo. Mas sem altar diante de si.

Talvez, afinal, tenha sido por sorte. Por sorte, uma deusa – a virgem, sabe-se lá – havia lhe soprado no ouvido a premência de ocultar a língua. Antes que o mundo acabasse em sangue e suor e lençóis úmidos de ternura.

Talvez, afinal, tenha sido uma sorte essa intuição tão reta. Ao coração, é melhor o silêncio. Quanto às palavras, são sempre tão perigosas quanto a imensidão do mundo do alto de um apartamento. É sempre vertigem. Diante da virgem ou da cama: ajoelhamo-nos para sermos vistos. E frustramo-nos quando faz escuro demais.

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