E depois?

Apressada e ainda morta de sono, despertou meio torta e toda bonita. Aspirou o perfume dele na nuca, no cantinho atrás da orelha esquerda: “meu menino e meu homem”. Partiu de carro acompanhada da voz do Ney, melodiosamente artística. Uma delícia. Pensou brevemente no individualismo e na poluição e que talvez, se trabalhasse mais perto, faria o percurso de bicicleta. Talvez. Refletiu mais uma vez e o próprio egoísmo a engoliu um pouco. Sempre a engolia um bocadinho. Mordia macio. O egoísmo às vezes é tão doce que faz a gente esquecer que é, sim, responsável por tudo o que envolve a gente. Por todos os nossos entornos.

Mas era assim, meio torta e toda bonita. Um pouco alucinada e cheia de uma raiva ou de um amor – não sabia ao certo. Povoada de ideias repentinas. Queria fazer o mundo andar. Isso porque, dias atrás, havia desejado repousar para sempre ao lado dele na rede na varanda. Não era desejo de morte: isso é pequeno demais. Era desejo de eternidade. Ali, como se o tempo não passasse e o sol fosse sempre aquela luz quase chegando ou quase indo embora, fazendo vermelho no céu.

Seu desejo, no entanto, agora mudava. Era um desejo desesperado de dançar. As sandálias vermelhas faziam pose e meia-volta na reunião da manhã. Ela vagamente se lembrava de ter sido um pouco rude com alguém e, ora, logo ela, que havia adquirido o devastador costume de ser delicada. Mas agora, agora, agora tinha uma ideia. E ter uma ideia assim tão deliciosa equivale a uma renovação de votos de amor e a vestir-se de vermelho para atiçar uma ternura há muito tempo perdida. Tinha uma ideia e não era fixa. Tendo se inventado poeta, tinha ideias soltas e loucas – e um coração sempre aflito em busca de orações.

Tinha uma ideia e recitava como se falasse a língua dos anjos, mas sem o amor, sem o amor: quem seria? Tinha uma ideia e, estando alucinada de amor ou de raiva, lançou as palavras como se. Como se agora estivesse nua. Nua e feroz. Mãe e atroz. Dona das próprias palavras roucas. Pois se era. E não sabia ser. Quase sem se dar conta, mais uma vez disse uma rudeza rasgada. E depois riu e cantou e dançou e inventou poesias e se sentiu com asas.

De repente entendeu que não tinha tempo para se culpar por todas as miúdas rudezas que fosse capaz de cantar. De repente, já não era santa e precisou tomar um gole de água para acalmar. De repente, era cruel, era humana, era bela, generosa e feliz. De repente, era o que era. E teve um pavor danado da sensação de não ter medo algum.

“E o que vem depois?” – rugiu baixinho. Havia nascido fera e só agora entendia.

Mas e depois?

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