No escuro

Era uma vontade de ser vista. Mas de um modo que eles não entenderiam bem. Brilhava ali, onde fazia o escuro de um delicioso de sarau na madrugada. Luz de velas dos amantes. E aquelas noites em que a energia elétrica acaba e é inventável que conversemos uns com os outros. Brilhava ali, onde não se via. E era assim que amava: mansinha, pra fazer arrepiar. Suave, para não ferir. Atenta, para compreender os apelos. Intensa, para vibrar prazeres.

Se fosse filha de santo, seria inteira de Iemanjá. Gostava do modo como o oceano se fazia tão feroz quanto acolhedor. Terno e perigoso. E tão bonito sob o luar. Acreditava em sereias. E precisava da mãe.

Era aberta. Embora feita de mistérios. Quanto mais entregue se é, mais insondável: é que ninguém compreende bem o coração que se dá.  Não sabia reter. Mas escondia o próprio rosto em cavernas escuras. Entornava. Água viva. E não entendia os deuses que não sabiam dançar.

Mas o maior de seus crimes era duvidar dos próprios passos. E acreditar que pisar em falso é promessa de fracasso. Acreditar em fracasso.

Era uma vontade de ser vista. Mas só no escuro era capaz de cintilar esmeraldas. Tão verde quanto o início de tudo. Sempre prestes a nascer.

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