Voz de fera

Feito uma gatinha doméstica, miava baixinho. Como se fosse um arrepio. Mas era sua voz de fera. E – enquanto todos pareciam saber exatamente onde pisavam – ela guardava sua vertigem no fundo da garganta. E escondia o grito nos olhos.

“Olhos de cigana” – disseram-lhe certa vez. “Olhos de cigana acorrentada.” – cantou baixinho. Tinha uma voz, mas era secreta. Como se fosse muda, mudava ao sabor dos ventos do outro. Como se não soubesse dançar, agarrava-se ao edredom cor-de-rosa pedindo proteção. Como se. E de repente não sabia quem era.

Era a vida, meu amor: ela acordava e perguntava a razão de tudo aquilo. E, quando não mais suportava, permitia que seu corpo gritasse. Derramava-se, então, em sangue e delírio: como se tudo aquilo fosse paranoia. Como se fosse enganada pelos próprios sentidos. Como se fosse mentira.

A verdade do outro, a verdade do outro, a verdade do outro: protegia-a como se protegesse o próprio peito. A verdade do outro, a verdade do outro, a verdade do outro. E, num passe de feitiçaria, esquecia-se da própria voz secreta. Aquela que cantava, num murmúrio: “E só dessa vez – só dessa vez! Só dessa vez não pedirei perdão por existir…”

Só dessa vez, meu amor, não pedirei perdão por ter olhos assim. Nem por ter aprendido a amar tão cedo.

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