Benzodiazepínicos

Benzodiazepínicos. Só porque tremia inteira no final do dia. E morria de medo do dia seguinte. Achava difícil pronunciar a palavra. Preferia dizer Rivotril. Enquanto dizia, ele derretia na língua e ela pensava na paz. Como se fosse possível. Antes tivesse um abraço para aconchegar assim que os tremores começassem. Pensava assim: “se ele me apertar forte, bem forte, vou parar de tremer”. Mas nem sempre as vibrações frias ocorriam quando ele se encontrava por perto. Nem sempre tinha como ligar para a mãe. Ouvia o nome do prazo e desconfiava do próprio valor: tinha pressa, mas não sabia do que. Só sabia que precisava entregar a tempo de. De não morrer? Então tremia. Não aquele tremor dos amores nas madrugadas. Tremia gelada e precisava se aquecer com lágrimas. E o benzodiazepínico derretia na língua prometendo não a paz, mas a letargia. Não a reflexão, mas o esquecimento. E, ora, não era ela quem acreditava na força viva da palavra? Na psicanálise e nos abraços? Nos antimanicômios e no ar livre? Pois sim: ela. Agora acorrentada no próprio asilo: uma casa de gelo e pavor. “Mas o amor, o amor…” – murmurava. Tinha pena da poesia que lentamente agonizava. Tinha pena dos olhos sem vida que a fitavam no espelho. Tinha medo de mulheres que odeiam outras mulheres e tinha medo dos homens e tinha medo de si. Tinha medo dos prazos e da mesa do escritório. Tinha medo de que ele sentisse que fazia frio e decidisse ir embora para sempre. Tinha medo das flores. E morria de pena do amor.

Benzodiazepínicos. Evitava o vinho por temer a dependência. Como se. Ora, ela sabia: uma droga por outra, a dependência está ali. Fosse o que fosse. O problema, na verdade, era acreditar na independência. Era acreditar que, ao ter como pagar as contas, precisaria abrir mão de outras mãos. E de mães. Tinha medo de que deus soubesse que, partir de então, ela podia. E que lhe tomasse todas as carícias que a protegiam do frio.

Benzodiazepínicos. Porque acreditou na farsa da independência, agarrou-se a eles. E deixou que derretessem ávidos na sua língua macia. Porque era proibido chorar, buscou-os para fazê-la dormir. Ela não sabia – ou havia esquecido -, mas o mundo que prega a total independência é o mesmo que mata o amor a cada dia. Não sabia e demorou a escutar, nas entrelinhas dos encontros, aquele sussurro de paz: “Precisar de ternura, meu amor, não é fraqueza. Abrace-me para que possamos tremer juntos até o silêncio: aquele em que se morre um pouco para, só então, nascer”.

A vida – ela entendeu mais tarde – precisava da morte. E toda morte precisa do amor. Quanto a nós, bem: nós precisamos de nós. E laços.

Somos feitos de carne e água, que é pra doer mansinho e depois curar.

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